sábado, 28 de julho de 2012

Homenagem a Ronaldo Lima Lins







Conviver com Ronaldo Lima Lins é, sempre, aprendizado.
Defender a universidade pública tendo Ronaldo Lima Lins como companheiro é, sempre, segurança, pela sabedoria e correção ética.
Ser  amiga de Ronaldo, um  privilégio imenso que me enche de orgulho.

 Fica aqui nossa homenagem,  por mais um aniversário que comemoraremos juntos em Santa!
Carinhosamente
Vera Salim,
Movimento Universidade Crítica e
 Movimento Estudantil Quem Vem com Tudo Não Cansa


A lógica da falta de lógica

Como os navegadores de outro tempo,
consultar os ventos,
ouvir as mensagens do silêncio,
decifrar os sinais da alma.

Notar que, às vezes, o que se procura
não se vê, não se escuta, não se encontra
nos arsenais de vidro
das transparências do possível.

Como os astronautas,
sondar mistérios,
conhecer as intenções do invisível
na escuridão dos espaços infinitos.

Fazer a viagem do inverso,
ali onde não se pode estar,
onde não há pistas ou pegadas,
e reconhecer as dores da eternidade.

Como os bandeirantes,
habituar os sentidos ao gemido das florestas,
ao grito dos animais silvestres,
à solidão das regiões inabitadas.

Talvez assim, transpondo barreiras,
a lógica da falta de lógica
atinja o seu paroxismo
e mude a dinâmica das agonias.

RLL (29/09/2005)



Maria do Socorro-Presente!



Aula do Prof Ronaldo Lima Lins No HCTE/UFRJ





sábado, 21 de julho de 2012

Reflexões sobre a greve e a pós-graduação na UFRJ


Ricardo Kubrusly

para Débora, 
in tempori belli, 
com carinho

 
            Quando um elo se rompe a corrente se desprende e a roda se desalinha, se estende  entre seus extremos e inventa início e fim em seus sentidos. Uma hierarquia se instala impreterivelmente e a voz dos mais poderosos se faz ouvir por todo lugar.  Seus mundos e desmandos, a lucidez e a insensatez de seus desígnios. Zeus reúne nas escarpas do Olimpo seus deuses e pede a imparcialidade na guerra das vaidades que na terra, mais uma vez,  se instaurava. Minerva, Atena dos olhos garços, filha devota bailando revolta em sua cabeça magnífica, protesta contra os destinos das contendas. Não era justo gritava, que os Aqueus fossem massacrados pelos Troianos como parecia acontecer naquele instante, não era justo e ela desobedeceria, imortal que era,  as ordens do Pai, todo poderoso. Zeus diante da filha rebelde, entre enfado e gozo, chama os deuses e desafia-os: estica uma corrente de ouro das mais altas escarpas olímpicas até a terra e instiga a todos que a puxem, com toda a força, na extremidade que toca a terra e ele, com o leve puxão de um só dedo, faz voar pelo cosmo sem fim ou retorno cada um que dele ousasse desobedecer. Não havia e não há paralelo para a força dos que, conhecedores dos destinos, propõem e promovem a equidistância entre os conhecimentos que se entre-disputam; e Ele adianta aos deuses e aos leitores, no canto 8 da Ilíada para que estes se aquietem e não se intrometessem nos destinos da contenda, posto que seu final  já era contido em seu início no momento em que se apresentava acontecimento, acontecimento esperado e que se cumpriria sem que os deuses precisassem brincar com seus bonecos humanos. Os que lemos nessas páginas, que atravessando o tempo nos encontram, não nos fala de livre arbítrio entre mortais humanos em guerra, mas da uma postura  necessária entre os deuses distraídos e seus poderes.
            O que aprendemos com a narrativa homérica senão a perceber que a força desigual das decisões unilaterais só deve ser empregada para assegurar a imparcialidade dos acontecimentos, o que aprendemos impõe-se pela preocupação em cultivar a liberdade dos movimentos entre saberes e ações, em prol da manutenção de um círculo de forças concorrentes e respeitosas, da roda, que a corrente esticada fortalece e em cuja tensão reside o segredo da compreensão e do entendimento entre as diferenças que nos formam e fortalecem. O que aprendemos, já sabíamos, sempre soubemos e, se a tentação do esquecimento se nos chama à fama ou aos metais e seus brilhos, almas faustas em corpos mortais que somos, a pessoa que nos forma e que se nos transcende em brilho e complexidade, ainda e sempre se lembra o que a tradição ensina:  Que é o elo mais frágil que determina a integridade da corrente e, que ao rompê-lo, por golpe certeiro ou ambição desmedida, o equilíbrio se perde e, com ele, o centro não mais segura a roda que se desfaz. É a véspera da barbárie e o instante injusto que instaura a injustiça que se estende entre seus extremos.
            Na estrutura universitária que vivemos hoje no Brasil e em particular nas universidades federais e na nossa UFRJ, as rodas tensas e profícuas são sempre nos discursos e nunca na prática que, desencantados que somos, construímos. Redigimos equipolências entre ensino, pesquisa e extensão enquanto exercemos a desigualdade e o preconceito entre eles que se deveriam ser o suporte equilibrado de nossas instituições, assim não se comportam. Desprezamos o ensino a uma posição subalterna e atrelada de maneira precária a uma pesquisa que se esquiva dos problemas reais que vivemos para se concentrar nos umbigos das ego-trips de nossos pesquisadores hiper-especializados que, carentes de uma educação ampla e abrangente, nada percebem do mundo que se nos rodeia. O ensino é usado como punição àqueles que não pontuam satisfatoriamente em uma tabela extemporânea e anacrônica. A extensão é só um nome cujo sentido é imperceptível para os que praticam o poder e a gestão dessa e de outras universidades no país. A extensão não existe, o ensino não conta e a pesquisa é, na maioria das vezes, pessoal e atrelada a interesses no mínimo suspeitos e distantes das nossas questões sociais mais importantes.  Essa não é a Universidade que queremos, que dizemos que queremos e que escrevemos em nossos relatórios oficiais. Essa realidade não se espelha nos nossos discursos e propostas, nossa prática é perversa e nosso futuro como fórum de discussões das diferenças e das diversidades dos pensamentos e reflexões, é nenhum.
            O que fazer com isso? Trabalhar por um cenário mais favorável, por uma realidade mais desdisciplinar e efetivamente mais transformadora, sim, mas como? Nas pequenas e nas grandes ações, dentro e fora das salas de aula, abrindo as caixas pretas dos laboratórios e tornando público os segredos do conhecimento.
Saber não tem nem pode ter fronteiras. Conhecimento científico não é segredo, é público, como são públicos, ou tem de ser públicos, nossos orçamentos e gestões. Precisamos de autonomia com transparência e de remunerações que nos permitam autonomia e transparência para pensar os problemas que se apresentam para o coletivo e não nos que se apequenam em nosso eu desesperado.
            Eis a pauta de nossa reivindicação. É isso: essa é nossa greve e a pós graduação não pode ficar, mais uma vez, fora dos acontecimentos. Esse exercício de esquizofrenia que vive uma pós sem conflitos em uma universidade dividida não mais se sustenta e essa Minerva inconsequente, obviamente, se equivocou.
            A greve que ora em curso se nos apresenta em suas batalhas e negociações com um governo imediatista e descompassado com os destinos transdisciplinares da sociedade, destino esse que é percebido nos discursos universitários, mas nem tanto em nossa prática, reatará os elos e fortalecerá nossos círculos de conhecimento e a roda de vida e verdades, com suas possibilidades de encontro e transformações e nossa pós-graduação, com suas novidades mais interessantes e suas novas propostas interdisciplinares, não pode ficar de fora. O elo mais fraco que se rompe e, parte a corrente e arranca o centro e cria a distância entre as diferenças, não é o ensino nem a extensão precários em nossas universidades precárias, pois estes entre desejo e memória se reinventam no invisível de suas práticas. Contudo é a Pós e suas excelências que atrelada apenas a si, se vê lançada em um cosmo sem rumo sem retorno e sem delicadeza.
            A vaidade é pouco para ser destino e a UFRJ precisa reatar os círculos que nos fortalecem e as rodas que nos sustentam e possibilitam.


Manifestação no CEPG-UFRJ

domingo, 4 de dezembro de 2011

Apoio ao Manifesto Pela Emerência do Professor Ronaldo Lima Lins.

Foto: Gustavo Stephan


Desnecessário apresentar Ronaldo Lima Lins.


Ronaldo, professor, diretor da Faculdade de Letras, amigo, poeta, escritor, intelectual e político. Facetas que compõem um homem que não se limita à estreiteza unidimensional.


O Movimento Universidade Crítica manifesta seu apoio ao movimento pela emerência do Professor Ronal Lima Lins.Sua emerência, até agora não encaminhada pelo seu departamento de origem, representa muito mais do que uma justíssima homenagem e reconhecimento do valor da sua belíssima carreira como professor da Faculdade de Letras da UFRJ.


Sua emerência, solicitada num abaixo-assinado com mais 800 assinaturas, muito além de possibilitar a continuidade do seu importante e necessário trabalho na UFRJ,materializa a continuidade de um projeto de universidade plural, onde idéias conversam e não são caladas pela força.


Somando-se ao Movimento ao Mestre com Carinho o Movimento Universidade Crítica apóia e luta pela emerência do Professor Ronaldo Lima Lins.


A conquista de sua emerência simboliza a defesa de um projeto de universidade plural, que não se curva a força imposta, autoritária e por isto medíocre. Representa muito mais, representa o sonho maior da necessária e permanente construção e manutenção da UFRJ como um espaço de livre pensar. Método, este sim, adequado para produção de conhecimento e a serviço de uma UFRJ plural,pensada como espaço de reflexão e não de opressão.

ABAIXO-ASSINADO PELA CONCESSÃO DO TÍTULO DE EMÉRITO AO PROFESSOR RONALDO LIMA LINS

Nós, abaixo assinados, docentes, estudantes e funcionários de instituições de ensino superior brasileiras levamos ao Departamento de Ciência da Literatura e à Congregação da Faculdade de Letras da UFRJ a defesa da concessão do título de emérito ao professor Ronaldo Lima Lins.

Tomamos tal iniciativa devido ao desvelo com que, ao longo de uma vida de magistério como quadro efetivo da Faculdade de Letras, o professor Ronaldo Lima Lins formou várias gerações de pesquisadores e professores, entre os quais muitos encontraram em sua orientação consistente e segura a base de que precisavam para se tornar nomes expressivos do campo dos estudos literários em nosso país.

Sempre empenhado na melhoria da Faculdade de Letras da UFRJ, o professor Ronaldo Lima Lins foi eleito democraticamente para dirigir a instituição nos períodos de 1982 a 1985 e de 2006 a 2009, tendo marcado ambas as gestões pelo rigor administrativo e o desenvolvimento de projetos inclusivos.

Trabalhador infatigável, o professor Ronaldo Lima Lins conseguiu conciliar o desempenho de tais papéis com o zelo pelo ensino e a pesquisa, como se constata no fato de ser titular de Teoria Literária e bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq (nível 1A).

Seus estudos e reflexões possibilitaram a produção de uma obra ensaística volumosa que, pela inteligência e qualidade de escrita, projeta a Letras junto às outras humanidades e a Universidade junto à sociedade. Aos livros de cunho teórico, acrescentou cinco elogiados romances e uma coletânea de poemas. Assim se explica que atualmente seja o autor vivo mais publicado da Faculdade de Letras da UFRJ.

Acreditamos que esses méritos – e muitos outros cuja listagem comprometeria a concisão necessária a um cabeçalho de abaixo-assinado – legitimam plenamente a passagem do professor Ronaldo Lima Lins à condição de emérito, mediante a qual poderá continuar a transmitir seu conhecimento aos alunos e enriquecer o corpo docente da Faculdade de Letras da UFRJ.

Conscientes de que os representantes discentes e docentes do Departamento de Ciência da Literatura e da egrégia Congregação da Faculdade de Letras pautam suas decisões por critérios acadêmicos, temos certeza de que logo o professor Ronaldo Lima Lins terá sua merecida emerência.

Rio de Janeiro, 10 de outubro de 2011.

terça-feira, 1 de março de 2011

Triste UFRJ

Monólogo para Três Cabeças Pensantes- Parte I

ou

Triste UFRJ

  1. A UFRJ anda tão pobre de idéias que este processo de “eleição” de reitor está copiando a recente e triste eleição presidencial: diferentes nomes, o mesmo programa de governo, promessas eleitoreiras vagas. Tudo num vazio proposital sobre os rumos do país. Mais uma cópia política grotesca.

  1. O silêncio. Acho que descobri por que estou ficando surdo. Há um silêncio ensurdecedor na UFRJ. Como não ouço mais nada (fora meus amigos de luta), minha capacidade de ouvir está sumindo, sumindo... Será que só nós vemos e ouvimos que esta Universidade está mergulhada em conflitos ? Que seu caráter “público” já acabou há muito tempo? Ou será que o silencio é proposital para encobrir os interesses dominantes, os privilégios crescentes?

  1. A geografia. Em pleno século XXI a UFRJ não consegue disfarçar suas contradições. Crescem novos prédios, numa nova “Dubai” universitária. E vem abaixo, depois de meio século de descaso, o prédio do HU. E tudo parece “natural”. Que universidade é esta em que seu campus é ocupado por empresas e doado às mesmas ? De quem ou de que é a responsabilidade pelo abandono de um prédio imenso que poderia, há décadas, estar pleno de atividades científicas e culturais? O silêncio é inaceitável.

  1. A pesquisa e o ensino. Ninguém, nem mesmo o nosso sindicato, parece se importar com o fato de que um número significativo, talvez a grande maioria (certamente não são todos), dos professores da UFRJ abandonam ou relegam a um segundo plano suas atividades em sala de aula. Dar aula não dá dinheiro, portanto, correm para uma pesquisa que tem retorno financeiro, para os convênios, para os negócios. Nosso ensino, principalmente o de graduação, está em crise. Que o digam os estudantes.

  1. O “crescimento” da UFRJ. Sempre apoiamos a expansão de vagas e cursos nas universidades públicas. Mas não seu aumento desordenado, sem preocupação com os rumos do ensino público superior. O resultado ? Está aí o Reuni, cheio de novos cursos, com problemas seríssimos, com poucos professores. Apoiado pela administração atual, pelo CONSUNI. , pelos “manifestos” da Praia Vermelha, no mínimo deveria ser objeto de uma avaliação sobre seu funcionamento atual. Duvido que nesta campanha eleitoral de “abobrinhas” isto seja levantado.

  1. A subordinação da UFRJ ao governo federal. Em tempos recentes foram inúmeros os exemplos de apoio da UFRJ aos projetos do governo Lula. Poucas as críticas. Quase nulas as avaliações sobre isto. Como será daqui para a frente?

7. A grande questão. A universidade pública num país capitalista. Enquanto o capital canibaliza o planeta, nossas cabeças “pensantes” viraram avestruzes. Será que a universidade não tem mais nada a dizer e a fazer? De quem foi a decisão de formarmos jovens “empreendedores”? De nos limitarmos aos interesses do mercado?

Prof. Jose Antônio Marins Simões

IF/UFRJ

A UFRJ pelas bandas do mar


Monólogo para Três Cabeças Pensantes- Parte II

ou

A UFRJ pelas bandas do mar


Aqui a ilha se amarela e o mar ao lado, acanhado, se esconde atrás do moderno edifício. O monstrengo da Petrobras se impõe sobre nossos sonhos e nossas pesquisas e nem mais nos incomodamos, afinal, a ponte nos livrará dos engarrafamentos e o carnaval e a chuva que não vem e o ano que pacientemente espere meados de março, quando atônitos e robotizados, enfrentaremos nossas tarefas e contaremos os feriados e notaremos que nossos alunos são mais e piores e que nossas instalações são as mesmas e não dão conta das nossas necessidades e cruzaremos todos os dias do palácio do petróleo e passaremos todos os dias pelos escombros do Hospital bombardeado por nossa omissão e descaso. Lamentaremos mas sem emoção, acabaremos por concordar que não há mesmo muito a fazer. As decisões, afinal não passam por nossas salas de aula nem por nossos laboratórios nem por nossas conversas e muito menos por nossos técnicos e alunos que não foram ouvidos nem sobre a edificação do monstrengo nem sobre a destruição intempestiva do hospital abandonado.

Aqui a ilha se amarela, o calor transborda de azul o cinza que se insiste cinza em nossos desassossegos. A UFRJ vendida aos editais se esquece de pensar o mundo. Das chuvas de Janeiro, estamos cuidando, os bandidos, Credo Cruz, evaporaram-se graças à eficiência de nossos policias, no Alemão só se fala inglês e pobre de Vito Manuel que não sabe inglês; do deserto de ideias que se inaugura em mais esse ano de faz de conta, não, ninguém se importa, ninguém percebe.

Aqui a ilha se amarela, o mar se foi por trás dos sonhos adiados, já não mais nos damos conta de sua presença, já nos esquecemos do sabor das aventuras e do alcance dos sonhos. Impedidos do mar, já não mais pensamos o Rio. Cobertos de medo, assistimos, silenciosamente, o naufrágio da UFRJ.


Sim, teremos eleições para reitor e os corredores buchicham e nos gabinetes, os telefones não param, mas imitando o país, com suas eleições silenciosamente eletrônicas, com suas repetições do mesmo, seguimos, mais outra vez, a triste lógica do “eu quero mesmo é me dar bem” e as chapas que se apresentam, representam mais o monstrengo que nos divide, o hospital que se desfez do que os alunos técnicos e professores que aqui trabalham com uma réstia de sonho e justiça em suas mãos.

Escondidas em silêncios e vergonhas as questões que uma universidade pública deveria levantar e refletir e debater e por fim, agir e deliberar, ainda se agitam. Há que escutá-las entre os escombros e espelhos desta ilha adormecida. Por onde andarão nossas ideias de ensino-pesquisa-extensão unificados e investigativos? Perdidas e desfeitas por pesquisas financiadas por interesses restritos ao mercado financeiro. Ensino desacreditado, envergonhado e extensão pífia. Aqui, professores são punidos se seus interesses se desviam dos das linhas previamente aquinhoadas por nossas agencias financiadoras. Aqui, professores são condenados a salas de aula. O ensino se tornou envergonhante, a extensão, pífia. Vive-se o faz de conta do progresso inevitável. Sem tempo para refletir copiamos o que se nos é imposto sem sequer conversarmos entre nós mesmos sobre o que estamos fazendo. Vivemos encastelados em nossos laboratórios sem saber o que estamos medindo e para quê? Vivemos preenchendo formulários e pedindo financiamentos e vendendo nossa capacidade produtiva a qualquer oferta de qualquer dinheiro. Há muito não mais nos preocupamos com nossas condições de trabalho. A UFRJ se terceiriza às grandes multinacionais e não existimos como universidade. As perguntas soterradas sob os escombros do que já não somos lentamente desaparecem. E o que sobra somos nós, esperando, silenciosamente, contando os feriados e esperando, esperando, enquanto o calor acontece. Não seria a hora, essa sempre agora, de pensarmos o que fazer com isso, antes de repetirmos os mesmos erros de sempre, antes de nos contentarmos, silenciosamente, mais uma vez, apenas com as mudanças dos nomes dos mesmos?

Prof. Ricardo Kubrusly

IM/HCTE/UFRJ

Escovar a Universidade no Contrapelo da História

Monólogo para Três Cabeças Pensantes- Parte III
ou
Escovar a Universidade no Contrapelo da História


Exigência fundamental de Walter Benjamin é escrever a história a contrapelo, contra a tradição conformista cujos partidários estão, sempre ,"em empatia com o vencedor".


Preparava-me para abrir este manifesto no estilo-chamamento “Vote Nulo na eleição para Reitor ou Construa uma chapa que não represente o continuísmo”, quando, nesta tórrida manhã de sábado ao ligar o ventilador caiu literalmente da minha prateleira uma mensagem de Zeus na forma de um pergaminho velho, de escritor desconhecido.

Título: Sobre meninos e vacas, mais um desastre literário em um monólogo para três cabeças.

Explicava o preâmbulo: “Trata-se de uma carta anônima, sem destinatário, ...escrita numa língua nativa estranha para professores da UFRJ.” Dela eu registro a última parte.


O Hoje que te escrevo é sempre um amanhã desconhecido.

E logo depois:

Quando a morte, vestida de mãe e em onça disfarçada, reconhecendo sua derrota para o amor, despede-se do velho professor apaixonado, ele interrompe sua retirada e a chama: ‘Não vais agora. Ela há de me fazer sofrer e tu me consolas. Mão de mãe não fere, a dor não deixa marcas’.

As escavações continuam... Parece que há sempre algo que escapa à solvência unânime do lodo”.

Assim inspirada, não vejo o momento para meu chamamento panfletário, mas sim para um chamamento contra a solvência unânime no lodo”.

Lodo que pouco a pouco engole a UFRJ, transformando a educação numa instrumentalização massiva, exigência para o necessário ganho de competitividade na lógica do capital. Lodo onde a UFRJ afunda procurando saídas dentro da estreita ótica do modelo capitalista de sociedade.

E assim brotam as “inovadoras” soluções para criação de uma nova sociedade " auto-sustentável , pautada no desenvolvimento tecnológico e na gestão do conhecimento”. Empreendedorismo, a milagrosa fórmula para cura de todos os males é pauta das infindáveis reuniões que traçam “metas “e “ missões ” de todos os nossos mandatários de plantão. Solução primária, falsa e inconsistente, que nos afunda no pantanoso e inexorável caminho traçado pela ótica do capitalismo selvagem e belicista.

Sabemos, especialmente se adotarmos o rigor do método de análise concreta da História, que as inovações tecnológicas são o caminho para a necessária mudança para uma nova sociedade, ao mesmo tempo em que constitui exigência de sobrevida do capital. Solução, tão velha quanto o capitalismo, que traz em si a contradição do próprio modo de produção capitalista.

A nova e estarrecedora conjuntura, tão cruel como as já vividas em outros ciclos de crise mostra – outra vez – que o capitalismo segue o inexorável curso previsto por Marx: diminuição tendencial das taxas de lucro, queda de salário e miserabilização progressiva população mundial. Em Marx também, está explicitada a necessidade permamente da inovação tecnológica como condição de sobrevida do capital, com a incorporação ao processo produtivo de máquinas e inovações tecnológicas para aumento da “competitividade”.

Mudanças que trazem como conseqüência direta a diminuição da taxa de mais-valia e não colocam outra alternativa para sobrevivência do capital que não seja a expansão de mercados e o aumento da exploração da força de trabalho, do trabalhador.

Desnecessário enumerar os exemplos de miséria no planeta, quer nos entornos do Vale do Silício, templo maior da sacralização da tecnologia, e no trágico cotidiano dos da Índia, celeiro de tantas e competitivas inovações tecnológicas .

Soluções verdadeiras devem seguir o caminho apontado por D. Harvey: “É preciso resgatar o capitalismo dos capitalistas.” Desmascarar sua fraudulenta ideologia neoliberal e todas as suas tensões e contradições internas, já insustentáveis, para que, como disse Marx, “o capitalismo desapareça e se abra caminho para algum modo de produzir alternativo e mais racional.”

Assim refletindo, fico a nos perguntar:

#Que UFRJ queremos?

# Minerva, até quando, te curvarás submissa e respeitosa à lógica do capital?

# Reitoria, até quando defenderás o Reuni, as expansões sem estrutura e atrasarás as bolsas de estudantes alojados numa precária e vergonhosa construção?

# Reitoria, até quando permitirás a privatização dos estacionamentos do CT, a exploração dos guardadores e terceirizados?

# Mais ainda, há diferenças entre as chapas concorrentes?

E assim pensando respondo:

Vote Nulo ou Construa uma Chapa que reinvente nossa história na contra hegemonia do capital.

Profa. Vera Salim PEQ/COPPE/UFRJ